quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

MEMORIA - "2. O primeiro exílio"

2. O primeiro exílio
Não conhecia ninguém ali. Mas, no aeroporto, esperava-me o reduzido grupo de asilados que vivia no país -cerca de vinte-o qual me proporcionou, assim como as autoridades mexicanas, uma acolhida reconfortante. Entre os muitos amigos que fiz -além de Maria Ceailes, combativa militante das Ligas, com quem compartilhara o asilo na Embaixada- recordo, com especial carinho, Carlos Taylor, comunista histórico, homem de grande coração e de caráter reto, que fora no Brasil presidente da União Nacional dos Servidores Públicos e que, depois de bons serviços prestados ao México, ali veio a falecer, em 1978; Alvaro Faria, cuja idade relativamente avançada em nada diminuíra o seu entusiasmo pela filosofia e pela política e graças a quem privei, também, da amizade de Rodolfo Puiggrós, há muitos anos exilado no México e que ministrava, na Escola de Economia da UNAM, o único curso de marxismo daquela universidade; e Cláudio Colombani, estudante de engenharia de São Paulo, que me fez perceber o quanto era grande, entre a juventude do PCB, a revolta contra o reformismo e o acomodamento da sua direção. Reencontrei, também, Andre Gunder Frank, lecionando então na UNAM, o qual me facilitou os primeiros contactos com intelectuais e militantes políticos mexicanos.
Aos quinze dias da minha chegada e depois de sofrer uma decepção -Pablo González Casanova, um dos poucos intelectuais que eu conhecia de nome e que me recebeu com carinho e solidariedade, deixara a direção da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, da UNAM, sendo substituído por Enrique González Pedrera, que simplesmente não me recebeu- obtive, através de Mario Ojeda Gómez, então diretor do Centro de Estudos Internacionais do Colégio do México -o qual, além de calidamente solidário, era um entusiasta do Brasil- um lugar na instituição. Entre os colegas de quem guardo melhor lembrança, nesses primeiros tempos de Colégio, estão, além do próprio Ojeda, Olga Pellicer de Brody, antiga companheira de SciencesPo; Rafael Segovia, cujo ceticismo e ironia incitavam ao rigor; Víctor Urquidi, desenvolvimentista ilustre, mas capaz de respeitar o direito de opinião; Roque González Salazar, homem inteligente e cheio da alegria de viver; e, principalmente, José Thiago Cintra, que eu conhecera ligeiramente no Brasil e que fazia uma pós-graduação em estudos orientais, o qual acabou por se tornar um de meus amigos mais queridos.
A primeira tarefa que me coube foi a de escrever um artigo para a conceituada revista do CEI, Foro Internacional, sobre os acontecimentos recentes no Brasil. As interpretaçôes correntes sobre o golpe de 1964, além de considerá-lo mais uma simples quartelada, apresentavam-no essencialmente como resultado da intervenção norte-americana, um corpo estranho, de certo modo -ou, como dissera Leonel Brizola, um raio no céu azul- à lógica interna da vida brasileira. Meu ponto de vista era radicalmente oposto: a ação dos Estados Unidos no Brasil não se podia entender como alheia à realidade nacional, mas como elemento constitutivo dela e só pudera se tornar efetiva (e, portanto, só se explicava) à luz da luta de classes no país, que fincava suas raízes na economia e determinava o jogo político -e da qual as Forças Armadas eram parte plena. Com base na magra informação factual e estatística que pude levantar, suprida por meu conhecimento direto e pela minha vivência, dediquei os dois primeiros meses no Colégio à demonstração dessa tese, daí resultando meu artigo "Contradicciones y conflictos en el Brasil contemporáneo" (escrito, à guisa de exercício, em castelhano) -que se baseava, numa ampla medida, no relatório sobre a situação política brasileira, que eu apresentara na última reunião do Comitê Central da Polop de que eu participara, realizada em março de 1965. Tendo passado pelo crivo da crítica de Segovia, o artigo teve sua aceitação decidida pelo Conselho Editorial de Foro Internacionalgraças ao peso da opinião de Urquidi, que declarou ter enfim lido alguma coisa que permitia entender o que ocorrera no Brasil.
A importância desse artigo foi o de colocar sobre outras bases a explicação do processo brasileiro pós-1930, influenciando consideravelmente análises posteriores. Os ecos dessa influência podem perceber-se na maioria dos estudos que se escreveram depois sobre o tema, menos em autores que me citam explicitamente (por exemplo, Dreyfus, 1981, que volta a privilegiar o papel da intervenção norte-americana) que em outros, que não o fazem (por exemplo, Oliveira e Mazzuccheli, 1977, particularmente em sua intenção -nem sempre bem sucedida- de privilegiar os "fatores internos" e, sobretudo, em sua avaliação do segundo governo Vargas). A nível do Colégio, o artigo deu-me prestígio e motivou minha inclusão no corpo editorial de Foro Internacional, onde permaneci até deixar a instituição, em 1969.
Estimulado pela repercussão desse ensaio, tanto no Colégio como fora dele, e buscando penetrar na natureza profunda dos acontecimentos brasileiros, escrevi (ainda em 1965) dois outros - além de trabalhos menores, publicados em órgãos sindicais e estudantis, dos quais o mais importante era a revistaSolidaridad, editada pelo Sindicato dos Eletricistas, um dos mais poderosos e o mais avançado, então, do México. O primeiro deles -atendendo a uma sugestão de Frank, no sentido de que eu escrevesse algo para Monthly Review- foi dedicado, já não ao processo de luta de classes de que resultara o golpe militar, mas às suas causas econômicas profundas e às suas conseqüências, particularmente no plano latino-americano. Escrito também em espanhol, foi publicado, naquele ano, em Nova Iorque, sob o título "Brazilian Interdependence and Imperialist Integration", saindo a versão original em Selecciones en Castellano de Monthly Review, que se editava então em Buenos Aires.
Nele, modificando o enfoque, eu colocava em primeiro plano as transformaçôes da economia mundial no após-guerra (especialmente a centralização de capital nos Estados Unidos e seu efeito sobre as exportaçôes de capitais) e seu impacto na economia do Brasil e na diferenciação da sua classe burguesa, para examinar, à luz desses fenômenos, a política exterior brasileira nos anos 60 e suas implicaçoes para a América Latina. Esse estudo teve três resultados importantes.
Primeiro, impulsionou a superação do enfoque meramente institucional -e, freqüentemente, jurídico- que privava nas análises da política exterior latino-americana, motivando os estudiosos a investigar suas determinaçôes econômicas e de classe (efeito inicialmente sentido no próprio Colégio do México, mas, direta ou indiretamente, estendido depois ao Brasil, começando com a análise pioneira de Martins, 1972). Segundo, despertou maior atenção para a mudança operada nos movimentos de capital no após-guerra, com vantagem para os investimentos diretos na indústria, tese que se constituiria em um dos pilares da teoria da dependência, principalmente pelas implicaçôes do fenômeno na diferenciação interna da burguesia, que eu apontava no artigo e que sustentavam o conceito de "burguesia integrada" que eu ali expunha (ver, entre outros estudos, Santos, 1976, principalmente seu trabalho mais difundido, "O novo caráter da dependência", escrito originalmente em 1966, e Cardoso e Faletto, 1969, primeira versão em 1967, sobretudo o seu conceito de "burguesia associada"). Terceiro, levantou a questão do subimperialismo, que tratei ali pela primeira vez e que despertou particular interesse em círculos intelectuais argentinos e uruguaios, assim como de brasileiros que os integravam, graças à difusão que deu ao meu ensaio sua publicação em Buenos Aires. Esse interesse levaria um grupo ligado à revista Marcha, de Montevidéu, em que se destacaram Vívian Trias e Paulo Schilling, a desenvolver novas elaboraçôes sobre o tema, através das quais, por um lado, operou-se um deslizamento em direção ao que se poderia chamar de "teoria do satélite privilegiado" -distinta, em substância, da tese que eu levantara- e, por outro lado, descobriu-se e mesmo se hipervalorizou a doutrina geopolítica, até convertê-la em clave explicativa do fenômeno -o que também estava longe de coincidir com a visão que eu dele tinha (as elaboraçôes mais acabadas dessa corrente, em versão bem posterior, podem ver-se em Trías, 1977, e Schilling, 1978).
O segundo artigo (de fato, o terceiro) deveu-se a Jesús Silva Herzog, diretor da tradicional revista Cuadernos Americanos, que, procurado por mim, manifestou interesse em um artigo inédito, na linha dos anteriores; escrito também em castelhano, foi publicado em 1966, sob o título "La dialéctica del desarrollo capitalista brasileño". A diferença do primeiro ensaio, centrado no processo sócio-político brasileiro, e do segundo, mais preocupado com a articulação da economia brasileira com o sistema imperialista e as implicaçôes disso para a América Latina, este terceiro estudo procurava sintetizar os dois enfoques, com o propósito de desvendar as grandes linhas do processo histórico do Brasil moderno e a gestação das condiçôes da revolução socialista. Este último aspecto iluminava toda a análise e foi, efetivamente, com o título de "El carácter de la revolución brasileña" que o ensaio se republicou, em 1970, em Pensamiento Crítico, a revista cubana de mais prestígio naquela época e que se destacava por sua ousadia teórica e política.
Ao terminar o ano de 1965, ocorreu algo que influiu profundamente na minha trajetória intelectual. O curso de graduação do CEI incluía uma disciplina sobre a América Latina, centrada principalmente em questôes de política exterior, como indicava a sua denominação: História Diplomática da América Latina. Naquela época, o México era ainda um deserto em matéria de estudos latino-americanos, como atesta o fato de que -além de ser a única no gênero, em um curso de relaçôes internacionais- essa disciplina fosse sempre ministrada por um especialista norte-americano. O que sucedeu, naquele ano, é que o professor dela encarregado -de nome conhecido, mas que não recordo agora- teve um impedimento de última hora, criando um problema para o cumprimento normal do currículo em 1966. O razoável prestígio que eu me granjeara no Colégio, somado ao fato de ser brasileiro e ter portanto certa noção do que ocorria no Cone Sul, levou a direção do CEI a me assumir como latino-americanista e a solicitar minha colaboração para a solução do problema. Assim foi como me converti, de fato, em titular da disciplina, durante o resto da minha permanência no Colégio.
Na realidade, salvo informação direta e noçôes superficiais sobre o tema, adquiridas durante a minha estada na França, eu não sabia muito sobre a América Latina. Por cerca de três meses, dediquei-me, pois, ao estudo da bibliografia disponível, utilizando principalmente a biblioteca do Colégio -bastante boa, nesse particular. Ali, à parte estudos nacionais, na maioria clássicos, e uma ou outra tentativa de teorização mais geral (como os trabalhos da Cepal e os obras de Gino Germani e Torcuato S. Di Tella), fiz a desagradável constatação de que os estudos latino-americanos provinham essencialmente dos países desenvolvidos -principalmente Estados Unidos, Inglaterra e França, nessa ordem- e padeciam, no mais das vezes, de um paternalismo elitista, que me recordava os cursos de Balandier, em SciencesPo.
Organizei o programa, buscando combinar certas formulaçôes de caráter global com a análise por países e excluindo a América Central e o México, não só por serem suficientemente -no caso do México, amplamente- tratados em outras disciplinas, como também para evitar problemas políticos. A metodologia era, essencialmente, a que eu desenvolvera nos meus trabalhos sobre o Brasil, levando a que as questôes de política exterior, além de se enfocarem a partir de suas determinaçôes sócio-econômicas, constituíssem apenas uma dimensão do objeto de conhecimento construído no curso. Quando necessário, o programa introduzia o exame de categorias e teses marxistas, já que era no marxismo que ele se fundamentava. Essas modificaçôes fizeram com que o curso viesse a intitular-se, mais tarde, Problemas Internacionais da América Latina.
O êxito alcançado juntos aos alunos -um grupo particularmente brilhante, é justo reconhecer, e que trabalhava em regime de tempo integral- chegou a me criar embaraços, junto à direção e a colegas do corpo docente. Em seu entusiasmo, os estudantes fizeram-me objeto de endeusamento, ao mesmo tempo que estabeleciam comparaçôes entre meu curso e os demais, que resultavam ser pouco lisonjeiras para estes; pior ainda, assumiram posiçôes esquerdizantes, que destoavam na torre de marfim que a instituição se orgulhava de ser. Devo ser honesto: a minha opção teórica e política sempre foi respeitada no Colégio, enquanto ali estive, e se manteve invariável o cálido tratamento que me era dispensado, no terreno pessoal e profissional. Mas, de maneira bem mexicana, a direção do CEI tomou certas providências -como a de, para os futuros grupos, deslocar o curso de uma posição intermédia para o final do currículo e exercer sobre os estudantes, antes de que eles chegassem às minhas mãos, uma influência neutralizadora. Não surpreende, assim, que -ao ministrar de novo o curso, em 1968- eu me defrontasse com um grupo de alunos que passou à história do Colégio com a designação de cool generation.
Como quer que seja, a repercussão do curso de 1966 levou o CEI a criar, em 1967, um seminário sobre a América Latina, a nível de pós-graduação -iniciativa pioneira no México e, até onde sei, na América Latina, se descartamos as que correspondiam a organismos internacionais, de cunho mais especializado. Encarregado de sua coordenação, estabeleci para ele um programa flexível, cuja linha central era assegurada por mim, mas que incluía conferencistas, já para tratar temas previamente estabelecidos, já para intervir em determinadas áreas do programa, a partir de sua própria especialidade. Nesse contexto, além de convidar especialistas mexicanos e norte-americanos, aproveitei a passagem pelo país de intelectuais latino-americanos, em particular brasileiros, como Celso Furtado, Hélio Jaguaribe e Octávio Ianni. O curso foi bem sucedido, firmando minha posição no Colégio, e me proporcionou a possibilidade de conversar com os brasileiros sobre a situação nacional. Lembro-me, especialmente, da discussão que mantive com Celso Furtado, uma noite, no Café de Las Américas, juntamente com José Thiago Cintra -Furtado defendendo sua tese sobre a "pastorização", i. e., do retrocesso da economia brasileira ao estádio meramente agrícola, que a ditadura brasileira estaria promovendo (tese que ele havia exposto em seu artigo de apresentação ao número especial de Temps Modernes sobre o Brasil, publicado em 1966, que Siglo XXI editaria logo com o título de Brasil hoy); eu, insistindo no eixo central da minha reflexão sobre o Brasil, ou seja, na idéia de que a ditadura correspondia à dominação do grande capital nacional e estrangeiro e impulsionava a economia do país a uma etapa superior do seu desenvolvimento capitalista.
Em 1967, ainda, atento à reunião que se realizava no México sobre a proposta mexicana de desnuclearizaçào da região, de que resultaria o Tratado de Tlatelolco, escrevi, em colaboração com Olga Pellicer de Brody, o artigo "Militarismo y desnuclearización en América Latina". Nele, a par da denúncia sobre a atuação da delegação brasileira na conferência, que descaracterizara o objetivo do México e fizera do tratado algo de pouca eficácia, mostrávamos que essa atitude correspondia ao propósito da ditadura de desenvolver no Brasil uma indústria bélica importante, como base da política expansionista que ela praticava. O artigo publicou-se em Foro Internacional, despertando a atenção dos especialistas do Colégio para o tema e motivando duas teses de graduação no CEI (Lozoya, 1969, e Vargas, 1973).
A fins desse mesmo ano, durante uma quinzena de férias, em Zihuatanejo, e atendendo a uma solicitação da revista Tricontinental -lançada, em Havana, no contexto da mobilização revolucionária que se constituiria na linha central da política exterior cubana, nos anos seguintes- escrevi o artigo "Subdesarrollo y revolución en América Latina". Este viria ser o meu trabalho mais conhecido internacionalmente, já em virtude da grande difusão da revista (que se editava em espanhol, inglês e francês e se distribuía mundialmente), já pelas muitas republicaçôes de que foi objeto; destacam-se, entre estas, a da edição em castelhano de Monthly Review (que, após o golpe de 1966 na Argentina, editava-se agora em Santiago do Chile), a do reading elaborado por Bolívar Echeverría e publicado em Berlim com o título Kritik des bürgerlichen Anti-Imperialismus, e a do reading editado por Feltrinelli, denominado Il nuovo marxismo latinoamericano. Esse ensaio, que reflete o essencial das investigaçoes que eu vinha realizando, desde fins de 1965, resume seu conteúdo na declaraçào inicial -"a história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial"- e se dedica a demonstrar que esse subdesenvolvimento é simplesmente a forma particular que assumiu a região ao se integrar ao capitalismo mundial.
Em 1968, a convite de Leopoldo Zea, também professor no Colégio, que desenvolvia a iniciativa pioneira de criar um Centro de Estudos Latino-Americanos na Faculdade de Filosofia, da UNAM, assumi neste -além da direção de um seminário sobre a América Latina, para graduados e pós-graduados- a cátedra do curso História do Brasil e seus Antecedentes Portugueses, que teve singular destino. Como se tratava de um curso de dois semestres, destinei o primeiro a expor a teoria e o método marxistas, discutindo como aplicá-los ao estudo da América Latina; e o segundo a, sobre essa base, analizar o processo econômico, social e político do Brasil. O interesse que despertou o curso provocou, não só um notável aumento do número de alunos, motivando sucessivas mudanças de sala até chegar a um auditório, mas também a modificação qualitativa do alunado, que passou a vir de diferentes faculdades, tanto da área de humanidades como da de ciências exatas e naturais. Na realidade, ali se reuniu a vanguarda estudantil da UNAM -a ponto de, após a repressão ao movimento estudantil, em outubro daquele ano, ter-me sido sugerido, meio em zombaria e meio a sério, que eu fosse ministrá-lo na prisão.
Por pressão dos estudantes, fui levado a realizar também um seminário de leitura de O Capital. Dificuldades institucionais fizeram com que este se realizasse em minha casa, nas manhãs de sábado, com a participação de estudantes e professores jovens do Colégio e da UNAM. Essa iniciativa, sem precedentes naquela época, viria a dar seus frutos, como constatei quando, voltando ao México em 1972, me deparei com vários seminários desse tipo, tendo à frente participantes do de 1968.
1967 e 1968 foram, assim, aqueles anos em que, após consolidar minha posição no Colégio, me projetei aos círculos intelectuais e políticos mexicanos e iniciei meu lançamento no plano internacional. Foram, além disso, anos de situação econômica folgada. Com efeito, desde meados de 1966 -por mediação de seu filho, aluno meu no Colégio- conheci Gonzalo Abad Grijalva, funcionário destacado da UNESCO, que dirigia um órgão mantido por esta, a OEA e o governo do México -o Centro Regional de Construçoes Escolares para a América Latina (CONESCAL)-, ao qual me integrei com o cargo de Educador. Composto em sua quase totalidade por arquitetos e engenheiros e dedicado a questôes eminentemente técnicas, CONESCAL acabou por se constituir em um excelente ambiente de trabalho para mim: cercado de consideração, fiz amizades de saudosa lembrança (em especial, Oswaldo Muñoz Marín, Marín Reyes Arteaga, Alejandro Unikel, Carlos Osorno e minha secretária Magdalena, sem contar o próprio Abad) e, além de ampliar os meus horizontes com conhecimentos de arquitetura, urbanismo, artes plásticas e engenharia, pude aprofundar-me no estudo da realidade econômica e social latino-americana. Ali, participei dos cursos internacionais realizados anualmente pela instituição, desenvolvi pesquisas de caráter técnico (daí resultando dois informes de certo alcance, um sobre a formação tecnológica na América Latina e outro, de cunho mais coletivo, sobre uma nova metodologia arquitetônica para as construç es escolares) e publiquei um par de artigos na revista do Centro. Destes artigos, havia um que versava sobre a questão educacional na América Latina e que serviu de base para minhas reflexôes sobre o tema dos movimentos estudantis, que estavam então em ascensão. Permaneci em CONESCAL até 1969, quando, preparando-me já para deixar o México, me demiti.
Ainda em 1968, instado por Cláudio Colombani, comecei a escrever colaborações não periódicas para o influente e oficialista jornal El Día, na seção intitulada Testemunhos e Documentos. Em maio, entusiasmado com as ações do movimento estudantil brasileiro, escrevi um artigo de página inteira, no qual analizava suas motivaçôes e definições programáticas, sua dinâmica e suas táticas de luta. Por razões nunca aclaradas, ele foi publicado em agosto, pouco depois da eclosão do movimento estudantil-popular, que, em julho, sacudiu o stablishment mexicano até seus alicerces e se constituiu em um dos mais importantes pontos de ruptura na história do país. Inutilmente eu me muni de carta do jornal, na qual este assumia a responsabilidade pela infeliz coincidência. O fato -somado a meus antecedentes políticos, minha atividade docente e uma conferência pública, no Colégio, sobre a questão estudantil latino-americana- tornou pesado o ambiente que me cercava, até em minha casa (que passou a ser vigiada e a sofrer censura telefônica); no órgão da Secretaria de Gobernación, encarregado do controle dos asilados, recebi tratamento francamente hostil. Ao ter lugar, em outubro, a repressão governamental, com o massacre de Tlatelolco, minha situação se tornou insustentável.
Optei, então, por me entrevistar com a mais alta autoridade na matéria, o sub-secretário de Gobernación. Fria e polidamente, este me deu a versão oficial do que se passava: os bons "muchachos" mexicanos haviam sido envenenados por agitadores estrangeiros e se haviam voltado contra o seu país: no entender do governo, eu era um dos principais responsáveis pelo que ocorrera. Pareceu-me inútil argumentar e me limitei a indagar se isso significava que o governo queria que eu fosse embora. -O senhor está sob a proteção do governo do México; este veria, porém, a sua partida como um gesto de colaboração para que as coisas se normalizem- respondeu-me ele, com inalterável polidez. -Muito bem. De que prazo eu disponho? -perguntei. -Como, prazo? O senhor tomou uma decisão, ninguém o está expulsando- foi a resposta.
Depois disso, a pressão direta (vigilância, censura, etc.) cessou. Naturalmente, procurei demonstrar na prática minha intenção de cumprir o acordo: após renunciar a CONESCAL, reduzi minha participação no Colégio e me afastei da UNAM. Ou, pelo menos, eu pensava estar agindo assim: tempos depois, viria a saber que -sem nenhuma exigência, é verdade, de que eu fosse despedido- essas instituições haviam sido instruídas, por escrito, pela Secretaria de Gobernación no sentido de evitar relacionamento meu com estudantes.
Acionando os amigos que se encontravam asilados em outros países, criei oportunidades de saída e acabei por me decidir pela Argélia, passando pela França (correspondência com Miguel Arraes abrira-me as portas daquele país e levou-me, algum tempo depois, a prefaciar a edição mexicana de seu livroBrasil: pueblo y poder). Entretanto, para surpresa minha, a autorização de saída me foi negada. Voltando a falar com a mesma autoridade de Gobernación, esta justificou a negativa em virtude de acordo existente com a ditadura brasileira, no sentido de impedir meu deslocamento para centros de reunião de exilados -o que descartava, também, a França, o Uruguai e o Chile- a menos que, renunciando ao asilo, eu descarregasse o governo mexicano de qualquer responsabilidade sobre os meus atos. É o que eu acabaria por fazer.
Embora esse processo tenha levado quase um ano, é justo ressaltar que, feito o acordo verbal com Gobernación, não voltei a ser incomodado. Pude, inclusive, sem estorvos, manter estreita relação com os presos políticos libertados pela ditadura em função do sequestro do embaixador norte-americano, que o México acolheu. Entre eles, estavam Vladimir Palmeira e José Dirceu, líderes do movimento estudantil de 1968, além de Ricardo Villas e Teca. Foi, para mim, excelente ocasião para discutir os problemas da esquerda brasileira -descobrindo, também, que os meus ensaios sobre o Brasil haviam tido no país uma ampla difusão clandestina, inclusive com uma consolidação mimeografada, publicada pela União Metropolitana de Estudantes do Rio, sob o títuloPerspectivas da situação econômica brasileira, do qual só muitos anos depois me chegou às mãos um exemplar.
Uma pequena anedota revela como eu me tornara conhecido dos jovens militantes de esquerda e, ao mesmo tempo, a visão distante que eles tinham de mim. Ao chegar o grupo ao aeroporto do México, este foi cercado por um forte dispositivo de segurança e não pude trocar mais que algumas palavras com Vladimir, aproveitando para dizer que eu passaria mais tarde no hotel. Quando ele comunicou isso aos seus companheiros, Ricardo Villas, pouco mais que um garoto, caiu dos céus: -"Mas o Ruy Mauro Marini existe, mesmo?"-indagou, incrédulo, ante a inesperada materialização do que não fora, até então, mais do que um rótulo de textos de formação política.
Com as minhas atividades reduzidas, durante 1969, dediquei-me principalmente à direção de teses de graduação no Colégio. Três delas chegaram a ser apresentadas, ainda quando eu me encontrava no México: a de Jorge Robledo, venezuelano, de quem não mais tive notícias, sobre El movimiento estudiantil venezolano, que se inspirava nas minhas preocupaçôes sobre o tema e versava sobre a revolução de 1958 e a luta de classes subseqüente; a de René Herrera Zúñiga, nicaraguense, hoje professor e investigador no Colégio, com título que não recordo, sobre o processo sócio-político da Nicarágua e o fenômeno Somoza; e a de Carlos Johnson, mexicano-norte-americano, atualmente lecionando na UNAM, sobre a coerência interna do movimento dos países não-alinhados, medida através das votaçôes na ONU. Ficaram encaminhadas as de Ricardo Valero Becerra, mexicano, que viria a ter brilhante carreira na diplomacia e na política, sobre Fundamentos y tendencias de la política exterior brasileña, dedicada ao exame das determinaçôes sócio-econômicas da política exterior do Brasil nos anos 50, e a de Gonzalo Abad Júnior, equatoriano, hoje funcionário internacional, sobre a luta de classes no Equador, ambas apresentadas depois da minha saída do México.
Coube-me, também, em 1969, atendendo a convite de Pablo González Casanova, então diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas (IIS), da UNAM, participar do livro por ele organizado, Sociología del desarrollo económico (Una guía para su estudio), em convenio com um centro da UNESCO em Paris. Cada seção deveria conter um exame das tendências da disciplina considerada e uma bibliografia comentada. Respondi pela seção de sociologia política. O texto introdutório publicou-se também, isoladamente, na revista colombiana Desarrollo Indoamericano, dirigida por José Consuegra, na qual colaborei durante algum tempo.
Paralelamente, com o apoio entusiasta de Cláudio Colombani, ocupei-me ainda, naquele ano, da preparação de um livro, baseado nos trabalhos que publicara no período e pelo qual Arnaldo Orfila Reynal, fundador e diretor de Siglo XXI, manifestara interesse. Abrindo com o ensaio de 1967 sobre a América Latina, reuni ali meus estudos sobre o Brasil (reformulando, para incluir minhas considerações sobre a indústria bélica, o que se referia à política exterior) e acrescentei um ensaio sobre a problemática da esquerda, que muito deve às discussôes que tive com os presos políticos libertados, em particular Vladimir Palmeira. Problemas da editora atrasaram o seu lançamento, de maneira que, quando isto ocorreu, ao término do primeiro trimestre do ano seguinte, eu já havia deixado o México.
Subdesarrollo y revolución é, pois, um texto datado, centrado prioritariamente sobre a análise dos problemas brasileiros, mas que alcançou grande difusão nos anos 70, com reediçôes quase anuais, e que entrou, inclusive, já perdendo força, na década de 80. A meu ver, o interesse que despertou deve-se, em parte, à novidade do enfoque -inserido como está o livro na corrente das novas idéias que cristalizaram na teoria da dependência; em parte, à metodologia, que buscava utilizar o marxismo de modo criador para a compreensão de um processo nacional latino-americano, e, finalmente, à sua audácia política, que rompia com o academicismo timorato e asséptico que primara, até então, nos estudos dessa natureza. O último capítulo, sobretudo, que aborda os problemas da esquerda armada e o faz de dentro (o único precedente, nesta linha, havia sido Revolução na revolução?, de Régis Debray, em 1967), suscitou entusiasmo na intelectualidade jovem e, em geral, na militância de esquerda (assim, esta promoveu, na Itália, sua publicação na edição local de Monthly Review, apesar de já estar ali em curso uma tradução do meu livro); em compensação, ele chegou a provocar desconforto nos editores, que -não tendo tido conhecimento prévio do texto, por mim entregue diretamente à gráfica, quando já estava em marcha a impressão do livro- temeram, ao vê-lo publicado, que a empresa resultasse comprometida.
Problemas, é certo, o livro criou, mas em países como Brasil e Argentina, que apreenderam e destruiram remessas inteiras dele. Na maior parte da América Latina, porém, e no México em particular, ele foi um sucesso, que logo chegou à Europa. Em 1972, saiu a edição francesa e, em 1974 (com uma introdução que viria a ser meu trabalho mais significativo e em excelente tradução de Laura Gonsalez) a edição italiana, com o título Il sottoimperialismo brasiliano.Um contrato assinado com a Penguin Books não teve seqüência, por razôes que ignoro, mas, em 1975, efetivou-se a edição portuguesa, com base na 5ª edição mexicana de 1974, corrigida e ampliada.
Com ele, fechei com chave de ouro meu primeiro exílio, durante o qual, ao mesmo tempo em que completava minha formação, me realizara profissionalmente. A vitória de Luís Echeverría nas eleiçôes de 1969 -o qual, como secretário de Gobernación, comandara a repressão ao movimento estudantil- e a negativa da França a deixar-me entrar ou passar pelo seu território sem documentação (a qual me era negada tanto pelo governo brasileiro como pelo mexicano) levaram-me a, renunciando ao asilo, decidir-me pelo Chile, onde a situação política poderia facilitar as coisas. Em novembro de 1969, desembarquei em Santiago.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MEMORIA - "1. O começo"


Por Ruy Mauro Marini
Fuente: Archivo de Ruy Mauro Marini.
O mundo de amanhã é o nosso mundo.
Em seu nome, exigimos que se façam os grandes sacrifícios
e as renúncias forçadas
e a arregimentação
geral.

(Excerto de um poema de juventude)





Advertência


Este texto foi escrito para atender uma exigência acadêmica da Universidade de Brasília. Sua finalidade é a de dar conta de minha vida intelectual e profissional, razão pela qual as referências de ordem pessoal ou política que nele se incluem têm o propósito de mera contextualização. Em nenhum momento, eu pensei na possibilidade de sua publicação, havendo limitado a sua circulação a pessoas para as quais ele pode, a meu ver, revestir algum interesse -essencialmente, familiares e amigos mais chegados, assim como estudantes que manifestaram especial curiosidade em relação ao meu trabalho.
1. O começo
Nasci em 1932. Por minha origem, sou bem um produto das tendências profundas que determinaram o surgimento do Brasil moderno, que emergiu naquela década. Meu pai era o primeiro filho de um alfaiate artesão de Gênova e de uma camponesa da Calábria, que já o trouxeram concebido, ao emigrar para o Brasil, em 1888; minha mãe, filha caçula de uma tradicional família de latifundiários mineiros, acompanhou, menina, a mudança de meu avô de sua fazenda, perto de Livramento, para Barbacena, após a quebra que sofreu com a abolição da escravatura, e ali assistiu à dilapidação dos restos da sua fortuna, em almoços e jantares que reuniam habitualmente não menos de vinte pessoas. Professor de matemática na Escola Agrícola local, meu pai, depois do casamento e estimulado pela energia de minha mãe, ascendeu socialmente, formando-se em Direito e ingressando, por concurso público, à casta dos então chamados "príncipes da República" - os fiscais de imposto de consumo. Liberal na juventude, ele adaptou-se bem - embora mais por laços pessoais e familiares - ao clã local vinculado ao Estado Novo e, mais tarde, ao PSD. A imagem que deixou foi a de um homem simples, severo e surpreendentemente -se se têm em conta as tentaçôes a que seu cargo o expunha-honesto.
Após receber a boa formação que o ensino público proporcionava, principalmente no terreno humanístico -em sete anos de curso ginasial e científico no Colégio Estadual de Barbacena, fiz quatro de latim e sete de português, inclusive dois anos dedicados à literatura brasileira e portuguesa, e aprendi a ler inglês, francês e espanhol, além de obter uma boa base em matemática, história e geografia, e conhecimentos um tanto antiquados (como eu descobriria logo) em física, química e biologia- transferi-me para o Rio, em 1950, para me preparar para o vestibular de Medicina. A mudança alterou meus planos. Embora, no cursinho, eu me fosse atualizando em ciências físicas e naturais, estas não eram o meu forte e perdiam de longe para as atraçôes que a cidade me oferecia em matéria de cinema, teatro, praias e boemia. A experiência de um emprego provisório -como recenseador no Censo Demográfico daquele ano- fez-me tomar gosto pela independência e levou-me a, deixando os estudos, ocupar cargos menores, sucessivamente, na Central do Brasil, no Ministério da Aeronáutica e no Instituto de Aposentadoria e Pensôes dos Industriários, onde, havendo entrado também por concurso, acabei por ficar. Traduçôes, em geral do inglês, de matérias para jornais e agências de notícias ou de histórias em quadrinhos, revisão de textos para impressão, etc., permitiam que, sem grandes apertos, eu me entregasse à minha maior paixão - os livros. Junto à experiência de vida que eu adquiri, longe da casa de meu pai e do círculo de amigos de infância, aqueles foram anos que eu dediquei a completar minha formação, principalmente em literatura, poesia e teatro, história e filosofia.
Só em 1953 eu voltaria a me preocupar com a formação escolar. Mas as vocaçôes para as ciências humanas não tinham, então, curso fácil. O ensino de economia apenas se iniciava e se confundia muito -tradição com a qual nunca chegamos a romper totalmente, no Brasil- com o de contabilidade. A Faculdade de Filosofia não abria mais horizonte que o de vir a ser professor de ensino médio. O grande centro de formação humanística, no Rio daquela época, continuava sendo a Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. Foi para lá que eu me dirigi.
Dos cursos, ficaram na minha memória com maior relevo as aulas brilhantes de Hermes Lima, assim como de Pedro Calmon -estas últimas, menos substanciosas- e as exposiçôes fascinantes, embora obscuras e algo confusas, de um professor de que não recordo o nome, que substituía Leônidas de Rezende na cátedra de Economia Política. Mas, aluno do curso noturno, o mais politizado e a que concorriam pessoas mais maduras, muitas já bem sucedidas em sua profissão, foi com meus colegas que aprendi mais. Particularmente no que era o coração da Faculdade, o ponto onde idéias e inclinaçôes assumiam perfil mais acusado, enfrentando-se com determinação: o CACO, expressão maior do movimento estudantil da década de 50, movimento que fazia então o supremo esforço de -superando a ideologia meramente democrática da década anterior- forjar-se um projeto de país, ao calor das campanhas nacionalistas e desenvolvimentistas. Apesar da distância que eu tomava deles -irritado, como todos os independentes de esquerda, com a sua prática instrumentalista e prepotente- justiça seja feita aos comunistas que ali militavam (sob a direção de um jovem que se chamava nada menos que Lenine!), os quais, não importa quão minoritários e sectários fossem, muito me ensinaram sobre o Brasil e sobre o mundo.
Mas era o estudo das ciências humanas que me interessava e a Nacional de Direito não me podia dar mais que o que estava dando, com as limitaçôes que além disso me impunha o emprego diurno. Foi quando a Fundação Getúlio Vargas, com o apoio da OEA, decidiu -após iniciá-la com uma turma experimental- dar um grande passo na implementação da Escola Brasileira de Administração Pública, abrindo concurso de ingresso em todo o Brasil para jovens que estivessem dispostos a dar-lhe tempo integral, os quais receberiam bolsa de estudos. A própria EBAP oferecia, no Rio, um cursinho que fiz e que me facilitou aprovar o concurso em primeiro lugar, o que me garantia a bolsa. O apoio oportuno de um "pistolão" permitiu-me obter do IAPI licença remunerada para fazer o curso, que foi considerado como "de interesse do serviço". Abria-se uma nova época em minha formação.
Nova época, em todos os sentidos. Frente ao clima intelectual tradicionalista e rarefeito que privava na Universidade de então, a EBAP abria amplo espaço às ciências sociais e recrutava seu corpo docente na intelectualidade mais jovem, que a universidade mandarinesca excluía, ou no exterior. Figura marcante era ali Alberto Guerreiro Ramos, professor de Sociologia, crítico irreverente de tudo que cheirasse a oficialismo, eclético incorrigível, aberto às novas idéias que se originavam de Bandung e da CEPAL; sua influência sobre mim, naqueles anos, foi absoluta. Diferente, mas também decisiva, foi a influência que exerceu Julien Chacel, professor de Economia, rigoroso, ortodoxo, cuja timidez raiava a agressão e que recém-chegava da França para iniciar uma carreira acadêmica irreprochável. A François Gazier, que viria a ser o primeiro diretor do futuro Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (IEDES), de Paris, e que ocupou a cadeira de Ciência Política, além de suas aulas sempre exatas e bem fundadas, devo minha iniciação nas regras do método de análise e exposição, o produto mais genuino do gênio francês. Entre muitos outros nomes a mencionar, é justo registrar os de Marcos Almir Madeira, graças a quem conheci os cursos e os chás da Academia Brasileira de Letras; Marialice Pessoa, que, num português americanizado, buscava transmitir-nos sua fé inquebrantável em Boas, Linton e Herskovitz; Mário Faustino, sempre borbulhante de vida, malícia e ironia; José Rodrigues de Senna, figura humana admirável, e, last but not the least, Benedito Silva, diretor da Escola, cuja dedicação ao belo projeto que ela representava não foi por mim cabalmente compreendida, naquele momento.
A EBAP proporcionou-me o atingimento do que eu vinha buscando, i. e., a possibilidade de iniciar-me de maneira séria no estudo das ciências sociais; já no segundo ano do curso, eu começava a atuar como professor assistente de Guerreiro Ramos, em seu curso de sociologia na Escola de Serviço Público do DASP. É natural que o diploma de Administrador que ela me daria não tivesse a meus olhos a menor importância e que, bem antes de concluir o curso, eu me preocupasse com o modo pelo qual seguir adiante. A orientação e o apoio pessoal de Guerreiro Ramos me encaminharam para a França, de cujo governo obtive bolsa de estudos, sustentado em meu pedido por Gazier e por Michel Debrun, que o substituira. Segui para lá em setembro de 1958, a fim de cursar o Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Paris, o badalado SciencesPo. Mas não sem, antes, fazer uma interessante experiência em pesquisa, graças a José Rodrigues de Senna, que -chefiando, então, o setor de pesquisas da Petrobrás- deu-me a oportunidade de realizar, no norte e no nordeste do Brasil, a pesquisa nacional que êle dirigia sobre as condiçôes de vida dos trabalhadores da empresa.
Os dois anos passados na França completaram, praticamente, a minha formação. Além de me permitirem conhecer outros países, nos períodos de férias -Alemanha, Itália, Inglaterra, Suíça- assim como províncias da França, levaram-me a redondear minha cultura artística e literária e a entrar em contacto direto, i. e., como aluno, com as figuras mais notáveis das ciências sociais francesas da época, em SciencesPo (Jean Meynaud, Maurice Duverger, Georges Balandier, René Rémond, François Duroselle, Pierre Laroque, René Dumont, André Sigfried, entre outros) e na Sorbonne, IEDES e no Collège de France (Georges Gurvitch, Charles Bettelheim, Maurice Merleau-Ponty); fizeram-me, graças ao impulso dado por Jean Baby e André Amar, realizar, por primeira vez, a leitura de Hegel e o estudo sistemático da obra de Marx e aprofundar-me no estudo dos autores marxistas, Lenin principalmente; e me proporcionaram a convivência com o mundo estudantil e cosmopolita de Paris, daí nascendo amizades enriquecedoras com argelinos, peruanos, norte-americanos, mexicanos, dinamarqueses, marroquinos, alemães e, naturalmente, brasileiros e franceses.
O período que ali passei coincidiu com o auge da teoria desenvolvimentista na América Latina e no Brasil -com a qual eu me familiarizara na EBAP, pela mão de Guerreiro Ramos, havendo inclusive assistido de perto o processo de formação do ISEB (e, antes dele, do IBESP)- e com sua difusão na academia francesa, tendo Balandier como pontífice. Ao mesmo tempo, esse era o momento em que a descolonização era vivida dramaticamente pela França, mediante a derrota na Indochina e a radicalização da guerra da Argélia, provocando rupturas ao interior dos grupos políticos e intelectuais -fenômeno que acompanhei com vivo interesse, tanto mais que, em meu meio, eu convivia com jovens militantes argelinos, cambojanos e vietnamitas, além dos que provinham das colônias da Africa negra. As teorias do desenvolvimento, em voga nos Estados Unidos e nos centros europeus, se me revelaram, então, como o que realmente eram: instrumento de mistificação e domesticação dos povos oprimidos do Terceiro Mundo e arma com a qual o imperialismo buscava fazer frente aos problemas criados no após-guerra pela descolonização. Começa, então, o meu afastamento em relação à CEPAL, fortemente influenciado, ademais, pela minha crescente adscrição ao marxismo.
Isso me levaria, ainda na França, a tomar contacto com o grupo que editava, no Brasil, a revista Movimento Socialista, órgão da juventude do Partido Socialista (que publicou um artigo meu, onde ajustava contas com o nacional-desenvolvimentismo), em particular Eric Sachs, com o qual eu viria a estabelecer, a meu regresso, uma grande amizade e cuja experiência e cultura política me influenciaram fortemente. Esse grupo, com suas principais vertentes no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, constituirá, mais adiante, a Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (POLOP), primeira expressão no Brasil da esquerda revolucionária que emergia em toda a América Latina. Cabe observar, aqui, que o interesse que a Revolução cubana despertara na França, dando lugar a intensa cobertura da imprensa e à publicação de livros significativos, como o de Sartre, era muito maior que o que se verificava no Brasil -fato que constato com surpresa, ao regressar. Essa situação só se modificará depois da tentativa de invasão norte-americana e da decorrente posição cubana, em favor do marxismo e da URSS. A gestação da esquerda revolucionária brasileira e latino-americana -particularmente na Argentina, no Peru, na Venezuela e na Nicarágua- não é, como se pretende, efeito da Revolução cubana, mas parte do mesmo processo que deu origem a ela -independentemente de que passe a sofrer forte influência sua, nos anos 60.
A meados de 1960, voltei ao Brasil e reassumi meu cargo no IAPI, passando a trabalhar no setor de organização e métodos da Diretoria de Pessoal, o qual, sob a direção de José Rodrigues de Senna, se dedicava então à mecanização do arquivo de pessoal. Apesar de ser contemplado com uma função gratificada, o salário não era alto e forçou-me a buscar complementação. A partir de setembro, passei a ser o correspondente da noite na agência cubana de notícias Prensa Latina, dirigida por Aroldo Wall, de quem me tornei amigo, e ali permaneci um ano. Foi nessa condição que acompanhei -virando, às vezes, até à madrugada- o governo Jânio Quadros, a crise da renúncia e a primeira fase do governo Jango. Por outra parte, levado por Aluizio Leite Filho, eu me ligara, desde meu regresso, ao grupo da União Metropolitana de Estudantes que publicava O Metropolitano, como encarte dominical de O Diário de Notícias, com total independência, e que contava, entre seus quadros mais brilhantes, com César Guimarães, Carlos Diegues, Sílvio Gomes, Rubem César Fernandes, Carlos Estevam Martins, entre outros. Juntos, fizemos um jornal estudantil que marcou época, pelo estilo vibrante, a novidade dos temas, a abordagem direta (inclusive no campo da política nacional e internacional) e até por sua apresentação redacional e gráfica, que influenciaria o processo de renovação da grande imprensa, que se verifica mais tarde.
Em Prensa Latina e em O Metropolitano fiz o meu aprendizado jornalístico, tornando efetiva uma das facetas da minha vocação intelectual, que eu continuaria desenvolvendo no futuro. A guisa de registro, vale recordar que, em um dos meus raros trabalhos de reportagem, eu cobri, por Prensa Latina, o Congresso Nacional de Camponeses, que teve lugar em Belo Horizonte, em 1961, e tornei pública, através de O Metropolitano, a luta surda que se travava entre o PCB e as Ligas Camponesas de Julião -um dos pontos fortes do trabalho de massas da esquerda revolucionária. Essa matéria, além de surpreender pela novidade, ao trazer à luz do dia assuntos da esquerda (que, fora de sua própria imprensa, eram tabu nos grandes meios de comunicação), favoreceu o desenvolvimento da luta ideológica e política então em curso, ao torná-la explícita.
Em abril de 1962, criou-se a Universidade de Brasília, sob a condução entusiasta de Darcy Ribeiro, cercado por figuras notáveis, como Anísio Teixeira, Oscar Niemeyer, Cláudio Santoro, e uma plêiade de jovens intelectuais recém-formados, como Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra, Theodoro Lamounier, Carlos Callou, Luiz Fernando Victor, Levi Santos, José Paulo Sepúlveda Pertence. Rompendo com o imobilismo e o sestro mandarinesco da Universidade tradicional, a UnB inovou em sua concepção jurídica, constituindo-se em fundação, o que ampliava sua independência em relação ao Estado, e adotando o regime celetista, com o que visava a evitar a burocratização do corpo docente; em sua concepção orgânica, baseada em departamentos e institutos, ao invés da cátedra e faculdade próprias da universidade tradicional; em sua concepção pedagógica, que privilegiava o trabalho docente em equipe, via aulas maiores e menores, a relação ensino-pesquisa, o impulso aos cursos livres, debates e seminários e a abertura de cursos de pós-graduação; em sua concepção de pesquisa, que valorizava o entorno regional; e em sua concepção da relação universidade-sociedade, que a levava a abrir-se ao exterior, promovendo cursos de extensão e, inclusive, de formação profissional e capacitação sindical.
Integrando-me à UnB em setembro de 1962, como auxiliar de ensino -em 1963, passaria a professor assistente- realizei ali uma das experiências mais ricas da minha vida acadêmica, já como docente, lecionando com Victor Nunes Leal, Lincoln Ribeiro e Theotônio dos Santos, as cadeiras de Introdução à Ciência Política e Teoria Política, a nível de graduação, e co-dirigindo o seminário de pós-graduação sobre Ideologia Brasileira; já como estudante, preparando minha tese de doutorado sobre o bonapartismo no Brasil (cujo texto e materiais se perderiam em 1964, quando da primeira invasão da Universidade pelo exército); já participando das atividades diversas que a Universidade promovia, tanto internamente como no plano da extensão; já, finalmente, convivendo com os colegas já mencionados, além de outros - como Andre Gunder Frank, que ali aportou em 1963. Cabe assinalar, aqui, que, embora já possuisse um pensamento inquieto e original, formado ao calor de seu contacto com Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Huberman, em Monthly Review, foi então que Frank - absorvendo os novos elementos teóricos, que surgiam no seio da esquerda revolucionária brasileira -amadureceu as teses que exporia, de maneira provocativa e audaz, em seu Capitalism and Underdevelopment in Latin America, publicado em 1967, livro que representa um marco do que viria a chamar-se de "teoria da dependência".
Na realidade, e contrariando interpretaçôes correntes, que a vêem como subproduto e alternativa acadêmica à teoria desenvolvimentista da CEPAL, a teoria da dependência tem suas raízes nas concepçôes que a nova esquerda -particularmente no Brasil, embora seu desenvolvimento político fosse maior em Cuba, na Venezuela e no Peru- elaborou, para fazer frente à ideologia dos partidos comunistas. A CEPAL só se converteu também em alvo na medida em que os comunistas, que se haviam dedicado mais à história que à economia e à sociologia, se apoiaram nas teses cepalinas da deterioração das relaçôes de troca, do dualismo estrutural e da viabilidade do desenvolvimento capitalista autônomo, para sustentar o princípio da revolução democrático-burguesa, anti-imperialista e antifeudal, que êles haviam herdado da Terceira Internacional. Contrapondo-se a isso, a nova esquerda caracterizava a revolução como, simultaneamente, anti-imperialista e socialista, rechaçando a idéia do predomínio de relaçôes feudais no campo e negando à burguesia latino-americana capacidade para dirigir a luta anti-imperialista. Foi no Brasil da primeira metade dos 60 que essa confrontação ideológica assumiu perfil mais definido e que surgiram proposiçôes suficientemente significativas para abrir caminho a uma elaboração teórica, capaz de enfrentar e, a seu tempo, derrotar a ideologia cepalina -não podendo ser, pois, motivo de surpresa o papel destacado que nesse processo desempenharam intelectuais brasileiros ou ligados, de alguma forma, ao Brasil.
A nível teórico, isso só viria a dar todos os seus frutos após o golpe militar de 1964, quando, limitada em sua militância, a jovem intelectualidade brasileira encontraria tempo e condiçôes para dedicar-se plenamente ao trabalho acadêmico e se veria, de fato, convocada a isso pela situação que se passou a viver em toda a América Latina, assolada pela contra-revolução. No começo da década, a teorização encontrava-se ainda estreitamente ligada ao combate político e os êxitos ou fracassos se mediam através de indicadores muito concretos. No caso da UnB, vale ressaltar que a esquerda revolucionária se constituiu na força principal do nascente movimento estudantil de Brasília, hegemonizando a Federação de Estudantes que se criou, e -fato inédito no Brasil e na América Latina- de um significativo movimento docente, que deflagrou, em 1963, a primeira greve de professores universitários de que temos notícia, a qual culminou com a formação de uma pioneira Associação de Professores, em cuja direção a nova esquerda era absolutamente majoritária. Seria um erro pensar que ela ficou restrita ã universidade: a nova esquerda vinculou-se ao sindicalismo militar então ascendente, principalmente ao movimento dos sargentos, e ao próprio movimento operário que se constituía na capital, a ponto de, no I Congresso Sindical de Brasília, em 1963, estar em condiçôes de bater chapa com o PCB, perdendo por escassa margem.
Minha estada em Brasília foi cortada bruscamente pelo golpe de 1964. Naquele momento, eu me encontrava no Rio, onde -sabedor de que era procurado em Brasília- permaneci, o que não impediu que eu fosse sumariamente demitido, com outros doze professores, na primeira medida tomada pela ditadura contra a universidade. Depois de escapar de ser preso, em maio, caí finalmente, em julho, em mãos do CENIMAR. Em setembro, beneficiado por habeas corpus do STF (que a Justiça militar negara, anteriormente), fui sequestrado pela Marinha e entregue ao Exército, em Brasília, por conta de outro processo que se me movia por lá. Repeti o itinerário Justiça militar-STF e obtive, em dezembro, novo habeas corpus, que desta vez foi acatado. Embora por pouco tempo: não houvesse eu deixado a cidade, discretamente, horas depois da minha libertação, e teria sido preso novamente. Após um período de clandestinidade de quase três meses, quando a pressão policial-militar sobre meus companheiros e minha família tornou-se pesada, a ponto de forçar um dos meus irmãos a passar também à clandestinidade, asilei-me na Embaixada do México, no Rio, e viajei para esse país, um mês depois.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sobre o socialismo



Ruy Mauro Marini
Fuente: Archivo de Ruy Mauro Marini con la anotación "(1991-1992)".



I - O SOCIALISMO COMO PROCESSO HISTORICO
A crise a que ingressaram, na segunda metade da década passada, a maioria dos regimes socialistas pode ser objeto de duas considerações. A primeira consiste em não perder de vista que ela é parte de um processo teórico e prático, no qual se articulam os diferentes movimentos que, no plano das idéias e da luta social e política, realizaram a crítica do capitalismo, como modo de organização das relações humanas. De Sismondi à esquerda ricardiana, de Owen a Marx, de Kautsky e Hilferding a Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotsky e Gramsci, a teoria socialista pôs a nu os fundamentos da economia capitalista e da sociedade burguesa, evidenciou sua perversidade estrutural e a expropriação do trabalho social que elas propiciam, armou ideologicamente os povos que lutaram contra isso. E foram muitos esses povos, desde os operários parisienses de 1871 e os bolcheviques russos até as massas espoliadas da China, de Cuba, do Vietnam, de Angola e da Nicaragua.
Mais de um terço da humanidade optou, em seu momento, pelo rechaço ao capitalismo e em favor de um desenvolvimento social orientado à supressão das desigualdades de classe e à implantação de uma democracia radical de massas. Sob essa bandeira, mesmo suportando o isolamento e a as agressões internacionais, mesmo partindo de um atraso econômico e social sem paralelo entre as grandes potências ocidentais, a União Soviética conquistou em pouco mais de trinta anos uma posição privilegiada no cenário mundial. Em todos os países que seguiram esse rumo, as necessidades básicas da população, em matéria de educação, saúde e moradia, foram satisfeitas e se acabaram as ondas de fome e o desemprego.
Não é, pois, tarefa simples apagar o socialismo da história e muito menos convencer a imensa maioria da humanidade, para quem a solução dessas questões aparentemente primárias está ainda pendente, que o socialismo não foi mais que o equívoco daqueles que não compreenderam que a história havia acabado. Para essa humanidade explorada e carente, a história nem sequer começou. O camponês nordestino tenta entrar nela todos os dias, amontoando-se nos paus-de-arara, para descobrir, nas favelas do Rio ou de São Paulo, que a entrada continua a lhe ser negada. A segunda consideração sobre o que ocorre no mundo socialista implica perguntar-se se a crise do chamado "socialismo real" invalida a busca de formas superiores de organização social, a que assistimos há quase dois séculos, e lhe põe fim, ou se representa antes mais um desses momentos de radical auto-crítica, que estão presentes em toda a história do socialismo e dos quais ele emergiu com criatividade renovada. Foi assim após a derrota da Comuna de Paris e a dissolução da Primeira Internacional, do que surgiria a difusão do movimento socialista na Europa e a fundação da Segunda Internacional. Foi assim quando, ante os acontecimentos da guerra mundial, a Segunda Internacional se dividiu para defrontar-se, em seguida, com a primeira revolução socialista vitoriosa na Rússia e com a formação da Internacional Comunista. Foi assim depois de Yalta, quando, insurgindo-se contra os limites que o compromisso entre soviéticos e norte-americanos queria impor-lhes, iugoslavos e chineses proclamaram seu direito ã revolução socialista. Foi assim, na América Latina, até o povo cubano dar ao traste com improbabilidades teóricas e geográficas e, em todo o mundo, até o Vietnam apontar com o dedo a nudez do imperialismo.